quarta-feira, 4 de novembro de 2009
quarta-feira, 10 de junho de 2009
poema feito com as mãos
pulsação da palavra
pelo labirinto da
fala
compor um ritmo
compulsivo com a fálica
obsessão da escrita
capturar em suas
entranhas o selvagem
coração da noite
- criar a palavra-tambor -
vibrações de sua
dicção percussiva
penetrar a selva
da linguagem
& num rufar monstruoso
corpo acústico do poema
seu ressuscitado
batuque ancestral
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
creature
fiz este poema
...........à minha imagem
& semelhança:
frágil templo
...........de palavras
consumidas
...........pelo tempo
domingo, 7 de setembro de 2008
Roberto Juarroz: a vertigem da linguagem
Esta vertigem da escritura faz fronteira simultaneamente com o invisível e a existência, criando um espaço de reflexão que confluí para um ponto onde o poema se abre, explode ("Pero el hombre / allí no tendrá peso, / allí no será nadie"). Esta é uma poesia de confrontação direta com as limitações da linguagem, revelando de modo admirável seu poder, sua miséria. Somos impelidos a mover-nos assim em um ambiente onde as dúvidas materializam-se como uma experiência de comunicação com o essencial. Neste processo de incisiva agressividade o poeta vê, sente, respira através de suas palavras, pondo à prova os próprios limites da literatura através da manipulação de uma linguagem simples, uma linguagem de natureza elementar, que desnuda os fundamentos que permanecem ("Detrás del silencio, / detrás del espacio vacío, / detrás de lo que no existe”). Buscando um reencontro com a palavra que é a representação da própria vida, ou como pretendia Artaud com “a Palavra anterior às palavras”. quarta-feira, 23 de julho de 2008
Os fragmentos da Semente

Karen Stiehl Osborn - Fragment 7
Desde a sua grafia, o poema tem, paradoxalmente, no fragmento a sua unidade: a fragmentação visual, através do olhar que depara com o espacejamento fraturado do texto; a fragmentação rítmica, que compõe um sonoridade em staccato ao longo de toda a leitura e, por último – mas não menos importante na totalidade do poema – a fragmentação psíquica a que o sujeito, tanto no interior da cidade quanto no interior do poema, está exposto. Fragmentos de luz, de sombra, fragmentos do desejo, da repulsa, fragmentos do corpo, da mente, armando e desarmando jogos de montar e desmontar a memória, a infância, o cotidiano, a história, o mito, o silêncio e a palavra. Este é um espaço onde a poética se desenrola através da acumulação de sentidos, numa voz lírica impessoal e indeterminada, num lugar onde “Nem/ a áspera língua do poeta/ estendida/ no/ chão/ vazado das palafitas/ como/ cadáver das marés/ anoitecidas/ em/ círios/ de embriaguez exaltada/ traz algum/ resquício de conforto/ para a/ triste/ &/ promíscua procissão/ de almas/ em convulsa monotonia. Cenário onde a miséria social e a miséria anímica se fundem num pesadelo onde nada acena com um possível conforto.
Já havia assinalado em relação ao seu primeiro livro, Itinerário Interno, que, apesar de centralizado num eu lírico, o verdadeiro personagem do texto era o caminho, de fora para dentro, percorrido por um olhar transfigurador, que, a meu ver, é inerente a arte e a poesia. Neste trabalho presente o itinerário interno continua, só que numa tensão ainda maior em que “um movimento denso/ construindo/ cicatrizes/ na arquitetura imaginária/ do/ tempo/ perdido/ amortece/ os nervos/ da cidade metálica/ alimentando/ a fúria dos barcos/ entre aromas/ &/ carnificina/ onde/ a morte foi seqüestrada/ pelos espelhos/ da/ infância. Uma fratura permanente na paisagem, nos objetos, no sujeito e na temporalidade que engloba a memória da infância lançada para o presente com todo o peso das coisas existentes, num “horizonte encarcerado”, quase sempre provocante e hostil.
*Antônio Moura nasceu em Belém do Pará, em 1964. Publicou, em 1996, o livro "Dez", selecionado pela Universidade de Madri -Departamento de Filologia, para integrar a antologia internacional de poesia e crítica "Serta", reunindo poetas de línguas ibero-românicas, entre eles o poeta, tradutor e crítico literário Haroldo de Campos.Roteirista de cinema e vídeo, Antônio Moura atua nesta área como professor no Centro de Comunicações e Artes do Senac-SP. Trabalhou na realização do roteiro do médiametragem "Geraldo Filme", ganhador do prêmio de melhor filme brasileiro no "It's AU True - Festival Internacional de Documentários de São Paulo" e do Prémio Especial do Júri, no 26ª Festival Latino-Americano de Gramado. Colaborou ainda como tradutor no site O Poema.Em 1999, lançou seu segundo livro de poemas intitulado "Hong Kong & outros poemas", pela Ateliê Editorial, com prefácio de Benedito Nunes.Tem seus poemas publicados nas antologias Serta, de Madri e New American Wrighters, EUA, (traduzidos para o inglês). Além da antologia de poesia brasileira Poesia de Invenção no Brasil, editora Landi, São Paulo, 2002.Lança pela Lumme Editor de São Paulo o livro de poemas "Rio Silêncio" no Brasil e em Portugal, que foi muito bem recebido pela crítica do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, despertando em revistas de forte cunho literário como a carioca Inimigo Rumor, do poeta Carlito Azevedo, a Revista Zunai, do poeta e crítico paulista Claudio Daniel, e a Medusa de Curitiba, o interesse em publicar matérias em suas páginas sobre sua obra.No mesmo período publica "Quase-Sonhos", com tradução dos poemas do poeta africano nascido em Madagascar, Jean-Joseph Rabearivelo, portanto, de língua francesa e totalmente inédito no Brasil.quarta-feira, 9 de julho de 2008
A estranha mensagem
Ele veio nas trevas quando havia silêncio
e de novo trouxe a ternura dos galhos tombando para a madrugada.
Eu subi do fundo do mar como um líquen liberto
para ouvir a sua voz que era imensa
e trazia a ansiedade das flores explodindo,
mas só vi o silêncio enorme como a noite.
E ela chorou dentro de minha tristeza
porque era como a revelação do que eu havia perdido.
Ainda trazia nas mãos o frio dos troncos úmidos da noite,
e nos olhos a humildade da terra encharcada de chuva.
Um dia eu descerei verticalmente e para sempre
ao fundo deste mar onde ela mora
como um barco de pescadores desaparecidos.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
o velho
para Ronaldo Freitas
que sonhos sonha
xxxxxxxxxxcom óculos tortos
& um livro sobre o peito
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo velho e seu
ronco engasgado
como se a morte
xxxxxxxxxxviesse a todo
instante cortejar
seu leito incólume
xxxxxxxxxx& a vida fosse
um mero lamento
regado a cerveja
xxxxxxxxxx& cigarro
num eterno
arrastar de sandálias
xxxxxxxxxxxxxxxxxxpelo infinito
da madrugada
sexta-feira, 4 de julho de 2008
happening

o louco persegue
a insígnia incendiária
do sol
num bailado oriental
sobra sobre
a janela um
pobre poema
sob o sal
do deserto
:
uma palavra-sopro
desfaz a pálida
voz do vento
terça-feira, 1 de julho de 2008
Curtas metragens alemães e poesia contemporânea paraense.
Nesta quarta-feira, dia 2 de julho, quem curte cinema e literatura em Belém vai contar uma programação especial para o final de tarde. A partir das cinco horas, no espaço de ensaios da loja Ná Figueredo, vai acontecer o coquetel de pré-lançamento do Circuito Cultural Semeadura. O evento será uma prévia da programação que começará oficialmente em agosto e pretende movimentar eventos, idéias e discussões sobre literatura, cinema e arte contemporânea em geral na cidade. A programação começará com a projeção de 5 curtas-metragens alemães cedidos pelo Instituto Cultural Amazônia. São curtas independentes de uma academia de cinema alemã chamada Baden Wutenberg Academy, todos produzidos por estudantes de cinema com apoio de cineastas famosos, como Wim Wenders. A Exibição desses curtas no Brasil foi a contrapartida do ICAB para a Mostra de cinema da Amazônia na Alemanha, realizando assim o intercambio cultural entre os dois países. Alguns desses curtas foram selecionados para o Student Academy Awards europeu.
Em seguida o poeta paraense Pedro Vianna fará a leitura de alguns poemas de seu novo livro, Sementes da Revolta. O livro, vencedor do I Prêmio Ipiranga de Literatura, foi bem recebido crítica, tendo sido prefaciado pelos renomados poetas João de Jesus Paes Loureiro e Antonio Moura. Sementes da Revolta é o segundo livro da carreira de Pedro Vianna e foi lançado no último dia 21 de junho. Esta será a primeira oportunidade do poeta de ler e trocar impressões sobre o texto recém saído da gráfica com o público.
A programação terminará com uma mesa redonda com time de peso discutindo poesia contemporânea. Os convidados são: Antonio Moura, autor de Dez (Gráfica & Editora Supercores, 1996); Hong Kong & outros poemas (Ateliê Editorial, 1999); e Rio Silêncio (Lumme Editor, 2003). Nilson Oliveira, autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão (Edições IAP, 2006), Benoni Araújo autor de Não por acaso dispersos (Inédito) e Pedro Vianna, autor de Itinerário Interno (Edição do Autor, 2007); e Sementes da Revolta (Fundação Ipiranga, 2008) que pretendem abordar a temática: Poéticas da Transgressão.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
naufrágio íntimo
Acrílica, pastel seco e nanquim sobre tela - Paulo Ponte Souza
a solidão é tátil:
título de um livro
que se inscreve
em tempo
& ausência
esmorecer
de uma espera:
íntimo naufrágio
a solidão dispensa
metáforas ou
soluções de estilo
sua língua é
o estilete
sua página
a pele
domingo, 22 de junho de 2008
Matéria Jornal Liberal 21/ 06/ 2008 "Pedro Vianna lança hoje livro de poemas"
'Sementes da Revolta' está sendo publicado como prêmio por um concurso editorial
O poeta Pedro Vianna lança hoje, no Colégio Ipiranga (avenida Almirante Barroso, entre Humaitá e Vileta), o livro Sementes da Revolta, publicado como premiação do concurso de poesia promovido pela Fundação Ipiranga, no qual ele tirou em primeiro lugar. Sobre o livro, o também poeta Antônio Moura escreveu:
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Algum dia
que penetre teu ventre e o fecunde,
que pare em teu seio
como uma mão aberta e fechada ao mesmo tempo.
Acharei uma palavra
que detenha teu corpo e o entorne,
que contenha teu corpo
e abra teus olhos como um deus sem nuvens
e use tua saliva
e te dobre as pernas.
ou talvez não a compreendas.
Não será necessário.
Irá por teu interior como uma roda
percorrendo-te ao fim de ponta a ponta,
mulher minha e não minha
e não se deterá nem quando morras.
Roberto Juarroz.............................Tradução Pedro Vianna
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Alvorada
Que, quando ela dorme, parece a face talhada de um anjo.
Seu cabelo uma harpa, que a mão da brisa persegue
E toca, contra a nuvem branca dos travesseiros.
Então, em uma explosão rosa, ela acordou, e os seus olhos abertos
Nadaram em azul através de sua rósea carne amanhecida.
Do orvalho de seus lábios, a queda de uma palavra
Caiu como a primeira das fontes: murmurou
"Querido", em meus ouvidos a canção do primeiro pássaro.
"Meu sonho torna-se o meu sonho", ela disse, "realizado.
Eu acordei de você para o meu sonho de você."
Oh, meu próprio sonho acordado então ouso assumir
A audácia do seu sono. Os nossos sonhos
Vertidos nos braços um do outro, como riachos.
Stephen Spender....................................Tradução Pedro Vianna
sábado, 8 de março de 2008
panasonic
ainda não matei todas as baratas desse lugar
mas já peguei a maioria delas. há duas
que não consigo pegar. ficam dentro do revestimento plástico
do meu rádio, Solid State FM-AM, onde
o indicador vermelho seleciona as estações
quando giro o botão. só ouço duas
estações de FM, KUSC e KFCA, respectivamente. são
estações de música clássica.
aquelas baratas são cultas. elas ouviram a 9ª de Beethoven
na noite passada e agora estão o a ouvindo 2ª
de Brahms. não estou certo do que elas estão tramando, mas
elas estão calmas. somente suas antenas se mexem
de vez em quando.
desde então elas estão diferentes. elas estão até começando
a parecer críticos musicais. Quanto a isso, por favor
compreendam que não pretendo
ofender as baratas.
Charles Bukowski........................Tradução Pedro Vianna
domingo, 2 de março de 2008
Deixem-nos enlouquecer
Deixem-nos enlouquecer abertamente.
Ó homens de minha geração.
Deixem-nos seguir
Os passos dessa época abatida:
Vê-la atravessar a turvo território do Tempo
Adentrar o cárcere da eternidade
Com o ruído que a morte carrega,
Com a face que veste as coisas mortas –
Nem sempre dizer
Nós queríamos mais; nós tentamos encontrar
Uma porta aberta, um ato de amor total
Transformador da treva maligna do dia;
mas encontramos mais inferno e neblina sobre a terra
e dentro da cabeça
Um pântano podre de imensos túmulos tortos.
Kenneth Patchen.........................Tradução Pedro Vianna
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
cura
curvatura arma
uma trama
:
urge
sem rumo
nem rumores
cem mouros
:
morrem
sobra um
homem ruim
sobre a obra
:
run home
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Encarando o horizonte
O imaginário é a raiz quadrada
de um número negativo
e como tal não tem
o significado no ilusório senso-comum
em termos físicos comuns
nem se pode medir a extensão
do imaginário em termos temporais
é sem sentido e auto-destrutivo
porque não há singularidades
no tempo imaginário só eternidade
finito mas sem fronteiras
assim como a superfície da terra
é finita mas ilimitada
quando nós o buscamos
e sempre que encaramos o horizonte
a eternidade passa num segundo
Raymond Federman..............................Tradução Pedro Vianna
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
oferenda

The Poppy Queen - Beverley Ashe
para narjara oliver
deponho
à teus p(és)
os espólios da
batalha:
a tímida espera
ante
as marés de sonho
o espesso
óleo
saído
do vão das
fer-teis-idas
as
ós(sea)s noites
de carne
&
abandono
meus
las(sos) olhos
costurados
à
tua mortalha
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
a língua do relâmpago
lábios & mãos con
somem o
oco das horas
sobre
vivendo à
escrita elétrica da luz
com navalhas
toc
ando as entranhas
do espírito
feito
sacra
rio entre
tec(ido) na
fronte do poeta
ou voz petri
ficada
procur
ando
sil(abas) azuis
que a res
piração dos páss
aros
leva
consigo
ó
solit
ária injuria
semeada no in
visível
frac
assadas as
cíclicas fugas dos
auto
móveis
rumo ao fogo
inconsumível do o
caso ress
urge
ante a textura das marés
de escárnio
um exército
de sombras vege
tais
per
seguindo relâm
pagos
muito além
das prom
essas
onde naufraga o
esqueleto das convicções
é que res
s(urge)
a impiedosa voz da vi
leza tal altiva
embarc
ação deslizando
contra o fluxo
envene
nado das marés
ou edifícios
chicote
ando o
hí(men) ard
ente dos pesad
elos
o poeta indig
nado
exalta a morte
em suas pálpebras
petri
ficadas
re(colhe)ndo
cacos da real
idade
no peçonhento
poço do poema
como quem co
leciona
(in)s etos
por vaidade
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Palavras
Antonio Moura
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
justificativa
posso
inventar mil desculpas
para o osso torto
desse poema
mas venta na nave da noite
e a razão vaza entre
os dedos
sei
que abusei da palavra
batendo de porta em porta
a vender-lhe a morta larva
mas um
instante acontece
e logo tece
o que era antes
:
ante
cede
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Papo de rádio (um poema verdadeiro)
num talk show de rádio
pede a um artista
que lhe diga se
o número de horas
que ele gasta pintando
em um ano corresponde
à quantia de dinheiro
que ele ganha naquele ano
algo sobre como
arte e dinheiro
não são compatíveis
e deixa por isso mesmo
e dizer aquele entrevistador
cuzão que
ele estava confundindo
emprego com trabalho
vai para ganhar dinheiro
Trabalho (especialmente
Trabalho bem feito) é
o que dá prazer
e nada mais
Um emprego é tedioso
Um emprego é embaraçoso
Um emprego é exploratório
Um emprego é humilhante
Um emprego é idiotizante
Um emprego é perda de tempo
sempre dá prazer
e satisfação
cinco dias por semana
por uma determinada
quantidade de tempo
geralmente prescrito
por seu patrão
e suas necessidades
um emprego é limitador
todo o tempo
Trabalho é indefinível
Trabalho é eterno
Raymond Federman..................Traduzido por Pedro Vianna
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Construção
onde a forma
é procura
o poema trama
um novo
estratagema:
palavra insegura
até que surja
da chama
uma
outra estrutura
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Limite
"Ecrire, c'est entrer dans la solitude où menace la fascination.
C'est se livrer au risque de l'absence de temps,
où règne le recommencement éternel."
Maurice Blanchot
teu corpo
retorna
ao horizonte de meu
entorno
oco de significados
toco
fincado
na tosca superfície
dos
sentidos
copo
entornado
sobre a mesa posta
do
acaso
voz
umbertoecoando
nos corredores
da
alma
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
(ident)idade solar
galopa um crepúsculo
de
olhares desbotados
atrasando os relógios de sangue
&
a cabeleira líquida
do nada
isso (não) é o sol
cor
roendo as vestes do céu
como
inscrição sulcada
no seco solo do tempo
como
lâmina atravessando
o
murmu
rio da espera
(in)diferente
a todo estreme
cimento
derrama-se o mecanismo
(in)fatigável
do
desejo
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
O intruso
Ele invadiu, forçou a fechadura, ou roubou
a chave, e sabia o código para desarmar o alarme,
você poderia dizer, mas está errado: ele gosta daqui, e ele fica.
e experimenta minha roupa, e acontece, claro, dela servir-lhe.
Ele corre meu pente nos cabelos. Usa minha escova de dente.
Ele instalou-se. De manhã, ele senta em meu lugar
e toma seu café com torradas, lendo meu jornal.
Ele pega meu carro e dirige para dar minhas aulas;
Durante meu período no escritório ele encontra meus alunos.
Não somos tão diferentes. Mas ele está vivendo minha vida.
Tento alertar meus amigos com quem ele janta
ou minha esposa com quem ele dorme: “Esse não sou eu.
É um impostor. Como vocês não percebem?
Ele é velho! Ele é sujo. E, também, claramente louco!
Como pode enganar-lhes assim? E como vocês o suportam?”
Eles não me dão atenção, fingindo não ter percebido.
Poderiam estar eles juntos nisso de alguma forma?
Mas qual seu propósito? Foi ele também destituído
do apartamento, emprego, e esposa? Isso lançou-lhe em desespero?
E devo eu sair agora em busca de uma vítima,
Invadir sua casa, e começar a viver sua vida?
David R. Slavitt -------- Trad.Pedro Vianna
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
pai s agem e s s encial
dem delirante s
no vortex
da zona s onhabortada
onde
o
poema vomita
um entrecortado enigma
que di s s ipa o fervor da s imagen s
corpo s afogam a noite fragmentada por
reflexo s
em deva s s a convul s ão
paira s obre o s de s avi s ado s
um torpe gemido em forma de
S
barco bêbado & carregado de injuria s
ra s gando
o
dor s o da realidade
olho s vendado s s obre
o
alfabetoe a re s piração exaurindo
o
oco
da s hora s
sábado, 10 de novembro de 2007
o convite
fomos convi
dados para a festa da morte
para dividir seu re
pasto e suplicar-lhe os restos
para per
seguir seu rastro de ódio
& sangue & conduzir seu rebanho de hum
ilhados até os com
fins do esque
cimento
fomos convi
dados para o cortejo dos aflitos
para tatuar seus an
seios no tórax do poema
com a lâmina gasta nossa voz oprimida
re
velar o animal con
sumido pelos d
entes do ocaso
antes que os ossos & as horas se trans
figurem
em embarcações vio
lentas
fomos convi
dados para o baile dos afogados
para roubar-lhes as pa
lavras submersas
em igara
pés rasgados pela imagin
ação doentia
como se nada restasse além de um canto
para os que calam
ante a curva
tura dos b
arcos
sexta-feira, 8 de junho de 2007
Por trás do nome
O velho sofá reclamou um ruído rouco quando Orimar tombou de lado feito animal abatido. Porém ela não disse nada. Com tranqüilidade fitou-lhe o rosto vermelho e um automóvel rasgou o dorso da madrugada. Sentiu o cheiro do álcool ecoar pela sala, como um cântico, e quase teve pena. Como ele era fraco. Não passava de um frágil organismo se debatendo em seu próprio fracasso, pensou vitoriosa. Voltou os olhos para os livros na estante tentando afastar o pensamento arrogante. O Crocodilo, O Idiota. Maldito Dostoiévski, pensou, sem saber o que fizera para merecer aquele destino. Em movimentos leves recolheu, com suas mãos poderosas, o copo, a garrafa, o cinzeiro. Não queria vestígios da violência da noite.Contava que Bienvenido Granda, El Bigode Cantante, no auge de sua carreira, fora traído pela esposa com seu melhor amigo. O cantor desesperado, teria assassinado os dois e fugido para o Brasil. Mais exatamente para Belém. Ali teria raspado o famoso bigode e terminado seus dias como garçom num hotel da capital. Depois da morte do pai ela descobrira que tudo não passava de uma estória furada. Uma mentira provavelmente contada por um marinheiro bêbado, num dos muitos bordeis das margens do Amazonas. No entanto ela repudiava a verdadeira versão da morte de Bienvenido, e defendia a versão do pai como se fosse uma herança. Um conhecimento secreto. Uma versão íntima.
Orimar. Bem mais que um neologismo criado pela supressão das letras e-n-l-a-l-l-a-d-e-l no título de um bolero antigo, aquele nome sintetizava um ideal construído no âmago de sua solidão. Um ideal de reencontro com as tardes de correria pelos quintais de chão batido; os banhos de rio entre meninos e peixes; a varanda da casa iluminada pela pálida luz da lua; o pai jogado no fundo da rede. O pai. Ela buscava o pai no homem por trás do nome. Orimar. Mas Orimar jamais teria mãos para enxugar as próprias lágrimas.Não havia poder algum naquelas mãos. Talvez ele não tivesse força nem para lágrimas. Ele era fraco.
Por isso ela não pediu à lua que Orimar voltasse naquela noite, mas no fundo esperava por ele com uma viciada espera pela droga. Esperava seus passos na escada; seus olhos a evitá-la; sua arrogância incontida; e, sobretudo, ela esperava por sua crueldade. Sua crueldade que mesmo agora, tombado como um cadáver no sofá, ele exercitava absoluto. Por um momento pensou em matá-lo. Sim. Poderia matar facilmente aquele homem fraco, mas o pensamento era demasiado, artificial. Ela era muito forte para a crueldade. Herdara além de uma versão intima sobre o fim de Bienvenido, as mãos poderosas do pai. Mãos que trariam o ventilador para a sala. Cobririam o corpo sujo de Orimar. Mãos que enxugariam as próprias lágrimas.
quarta-feira, 2 de maio de 2007
A Ligação
Era uma voz inesperada. Uma voz há pouco esquecida num canto qualquer do passado, aquela que vazava, como sangue, pelos buracos do telefone. Ainda entorpecido pelo sono, chegou a pensar que fosse sonho aquela voz agora reconhecida: era ela, cuspindo palavras como se fossem pedras. Palavras num ritmo frenético, descompassado. Palavras como pequenos pássaros esmagados pelo sono. Parecia desesperada. Na certa aprontara uma das suas e não tinha outro otário para recorrer à essa hora. As palavras se perdiam. Tudo que pode anotar foi um endereço: Campos Sales esquina com General Gurjão.sexta-feira, 27 de abril de 2007
Palavraprecipício
en disant le contraire de ce qu’ont dit les poètes de ce siècle.
Il remplacerait leurs affirmations par des négations.”
Isidore Ducasse
saíram estas noites que vagam por aí, como vírus,
apunhalando-me os nervos com tal violência,
feito uma nova vileza secreta.
Guardo um velho sonho , uma mordida seca e larga,
uma mão miúda, como a de minha mãe,
que me embala e me espanca,
jogando-me dentro de uma rede encardida,
coberta por um mosqueteiro.
Posso ver seus olhos outra vez...
Guardo uma cicatriz desconhecida,
feita de falta de trabalho ou de tempo.
Talvez uma tristeza de quem já não consegue ser nada.
Sofrer não é muito diferente de fugir.
Seria uma merda se um desconsolo ou outra coisa
pudesse ser adiada até o desaparecimento.
É fácil ser influenciado pela morte.
E penso sempre o mesmo,
se existirá a ausência de movimento,
se não seria melhor ficar em casa
mais tempo, mais vezes.
Claro que já não tenho mais sangue no coração.
É uma das condições que me fazem
calar sobre o que me cerca.
Não preciso estar triste para destruir seja o que for.
Meus amigos têm medo que eu morra,
eu que sempre exercitei a covardia,
a indiferença, o tédio,
a desgraça. Eu que perdi toda a dignidade.
Quando faz sol, as ruas vestem-se de pessoas
que evitam o sol com as mãos abertas. O sol é triste.
Parece uma palavra caindo do céu.
O mundo junta os pedaços,
junta as peças debaixo de meus pés.
O sol parou. Caras desconhecidas enchem-me o coração.
Projeto meu futuro esquecendo delas.
Saindo de um motel pra beber cerveja.
Mal disposto como quem está preste a nascer.
Alguém me abandona nisto.
O dia sobe como uma pedra. As pessoas desaparecem.





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